
Sou José, como tantos da silva,
Pai de dez filhos, minha esposa é Maria.
Mas pode me chamar de Zé,
Pois meu nome não é importante, minha vida não é vida.
Como tantos Josés, outros tantos da silva
Do sertão eu saí, da seca fugi.
Para a cidade grande, para um sonho alcançar.
Só alcancei amargura, e três filhos perdi.
A Antônia, coitada, arranjou um emprego.
O dinheiro que ganhava não dava nem para se vestir.
Saía, quase nua, antes do sol se por.
Voltava bem casada, depois do galo cantar.
O Chico nanico também arranjou um emprego.
Saía pela manhã, engomado e bem penteado.
No final do mês me dava parte do salário,
A outra parte guardava para comprar um tal de Nike.
Ah! O Manoel conseguiu um bom emprego!
Só que tinha que viajar muito.
Quando voltava, trazia presentes caros para todos.
Depois saía dizendo que ia pegar um carregamento
A Maria minha esposa, minha vida.
Vive de lavar roupa para quem não gosta desta lida.
Dores na costa, muita peleja.
Um pouco de felicidade, só em casa onde é rainha.
Os outros sete meninos e meninas dos meus olhos,
Quatro ainda são barrigudinhos, cabeça grande, nariz escorrendo;
Aninha de seis aninhos não sai da saia da mãe;
Dois estudam. Quatro anos a mesma coisa! Querem ser doutor.
Um dia chegou aqui um homem engravatado.
Pele clarinha! Falava muito e eu não entendia nada!
Só entendi que ele me daria uma casa nova
Se nele votasse - queria ser deputado.
“Tem doença de rico e doença de pobre”.
Era o que eu pensava até ver com os meus olhos
Antônia se definhando. À disenteria e à pneumonia, conseguiu resistir.
Tomou um tanto de remédio e engordou um pouquinho.
Ela emagreceu de novo, adoeceu e partiu.
Nunca se viu alguém de gripe morrer!
O médico disse que ela pegou uma tal de AIDS,
Doença que eu pensava: “é só de artista de TV”.
Ah! Acabei descobrindo o que é Nike:
Era só um tênis que o Chico queria.
Não sei porque tinha que ser daquela marca,
Para não pisar em pedra e espinho qualquer coisa servia.
Mas, eu acho que deste tênis só tinha um par.
Pois, outro menino queria também e não pode comprar.
Com o Chico brigou, bateu e apanhou.
Enfiou-lhe um punhal e o calçado levou.
Manoel prosperou muito. Até carro comprou!
Perguntei-lhe um dia, qual era o seu negócio.
Respondeu-me que comprava e vendia um pó.
(Eta pó abençoado pra dar tanto dinheiro!).
Certo dia, o Manoel ficou muito famoso.
Sua cara estava em jornais e até na televisão.
No "jornal do povão", quanta tinta vermelha
Na foto do Manoel deitado no chão!
Ainda sou José, ou Zé como queira.
Como outros tantos da Silva e do morro.
Da casa de tábua coberta de zinco,
Da esperança acabada e do sonho esquecido.
Casa nova não veio, o Deputado sumiu.
Nas eleições votei nele, será que ele soube?
Será que a gravata o enforcou?
Talvez já seja presidente do Brasil.
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